Chaves

Minha senha é fraca. E daí?

Emanuel Joshua
4 de setembro de 20263 min de leitura

Nos anos recentes, com a popularização dos métodos de autenticação por dois fatores, os usuários têm tido a impressão de que estão mais seguros. Afinal de contas, caso alguém descubra sua senha, tudo o que você precisa fazer é entrar em sua caixa de e-mails ou celular, marcar a opção “não sou eu tentando logar” e, por fim, trocar a senha. Porém, à medida que os sistemas de segurança digital ficam mais seguros, a sofisticação dos criminosos aumenta proporcionalmente. Jé se veem relatos de criminosos utilizando artifícios como deepfake, tecnologia que usa inteligência artificial para se passar por outras pessoas, enganando sistemas de reconhecimento facial. Como, então, podemos ficar seguros?

Se você já passou pela experiência, hoje quase universal, de criar uma conta em algum site ou serviço digital, você sabe que uma boa senha precisa ter algumas características. Ela não pode ter datas de aniversário, nomes de parentes, nem outras informações que sejam fáceis de descobrir. Ela precisa conter caracteres especiais, letras maiúsculas e minúsculas, números… A lista é longa para senhas realmente inquebráveis. Mas você sabe como os criminosos fazem para descobrir sua senha? Se a resposta for não, é disso que vamos falar agora.

A primeira etapa é o que chamamos de engenharia social. Muito diferente do que normalmente imaginamos que um hacker faz, esta estratégia pode envolver conversar com a vítima pessoalmente sobre sua vida para descobrir dados sensíveis, fazer propostas comerciais, conseguir acesso físico a um computador e, em casos mais extremos, até mesmo recorrer a espionagem. Em uma empresa em que trabalhava, fizemos um teste geral enviando um e-mail aos funcionários, informando que todos haviam ganhado um ovo de Páscoa. Neste e-mail, havia um botão escrito “receber meu prêmio”, que levava a uma tela que pedia a senha de acesso ao sistema da empresa. Neste teste, 70% dos funcionários (incluindo membros da diretoria e gestores) forneceram suas senhas. Este é apenas um exemplo, dentre as infinitas possibilidades que criminosos têm para conseguir informações sensíveis ou até mesmo a sua senha inteira. Por isso, é preciso evitar informações como datas de aniversário e nomes dos filhos, pois estas são as primeiras coisas que os criminosos vão testar.

Falando das senhas, é importante compreender por que elas precisam ser tão complexas, com caracteres especiais (como @, #, _ e &), além, é claro, de letras maiúsculas e minúsculas intercaladas e muitos números. A forma que computadores tradicionais usam para descobrir senhas é, surpreendentemente, muito simples. Primeiro, por meio da engenharia social, descobrem-se algumas coisas que provavelmente o indivíduo colocaria em sua senha. Por exemplo, a data em que se casou. Tomemos como exemplo o dia 1/8/1995. O criminoso então insere os nomes dos filhos da vítima (que ele pode descobrir facilmente pelas redes sociais) e essa data em um sistema que gera possíveis senhas com análise combinatória. O sistema então, em segundos, gera milhões de combinações possíveis com os dados informados: 01081995julia, natan01julia08fernando1995, njf1995… A lista segue infinitamente. Porém, mesmo os computadores mais modernos ainda têm suas limitações. Se a sua senha tiver sete caracteres, usando apenas letras minusculas e números, em qualquer ordem, existem 78.364.164.096 combinações possíveis. O simples fato de adicionar algumas letras maiúsculas pode aumentar em até 44 vezes a quantidade de senhas que o computador teria que testar até encontrar a sua. Adicionando caracteres especiais, esse número aumentaria em 827 vezes, chegando na casa das trilhões de combinações possíveis. Para se ter ideia, é 8 mil vezes mais fácil sortear uma pessoa aleatória dentre toda a população mundial e essa pessoa ser exatamente você.

Vivemos em tempos de mudanças aceleradas no ramo da tecnologia e os avanços que a computação quântica trouxe podem mudar nos próximos anos a forma como lidamos com segurança de sistemas digitais. Porém, por ora, lembre-se: uma senha difícil de lembrar e escrever é quase sempre igualmente difícil de descobrir.